CARTA DE EDMOND

“Eu esperei por ti, todos esses séculos! Não pode imaginar como foi cada momento,que para você, eu dediquei de meus sonhos... de minha vida! Noites se passavam, dias surgiam, lugares apareciam e se modificavam sem, contudo, mudar a minha única certeza: voltar a ver-te um dia! Fechava meus olhos para esquecer que estava preso a um mundo, no qual você não existia nele. Esperava, em vão, o doce sopro gélido da morte, mas ela não me era piedosa. Ninguém via, ou imaginava a falta que sentia de ti! De todos os lugares pelos quais passei, mesmo aqueles mais ermos, você estava lá, ao menos em meu peito!

        Cada instante sem você era eterno, meu amor! Porém tudo se tornou vivo novamente no momento em que te reconheci, entrando pela aquela porta, vindo a mim, com o mesmo olhar doce e sorriso quente que a minha Gabrielle possuía. Meu espírito esteve em êxtase por alguns segundos e por pouco não me pus a abraçá-la, como sonhava, há tantos anos! Mas sabia que não era a hora.

        Confesso que foi muito difícil reconhecer-te, naquela bela mulher, e conter meus impulsos e sentimentos de tê-la em meus braços, agora e pelo resto da vida. Tive vontade de gritar o quanto estava feliz por tê-la reencontrado! Queria me pôr aos pés do destino, que a trouxe de volta para mim. Poderia beijar-te o quanto fosse suficiente para compensar todos os anos que a tua ausência me impediu. Será que sentiste o mesmo?

        Desde que soube estar em minha vida novamente, não pude mais fechar meus olhos. Não poderia dormir e desperdiçar um instante sequer de pensamentos para ti! Não queria perder nem mais um minuto! Haveria de contar-te tudo e voltarmos a nos amar como antes, retomando uma linda história de amor perdida há tanto tempo. Por certo não podia mais nem sonhar. Para quê mais sonhos, se você agora estava presente em minha realidade? Por mais lindo que meus sonhos fossem contigo, a tua presença era ainda mais valiosa!

        Tendo-a em meus braços, foi como se todo o sofrimento pelo qual passei tivesse desaparecido. Cada lágrima que derramei, cada grito de dor pela tua falta, todo meu desespero e revolta foram instantaneamente disseminados com o som da tua respiração junto ao meu corpo. A pele tinha a mesma temperatura, a tua boca o mesmo sabor, o cheiro era misteriosamente familiar aos meus sentidos... o que fazer com a miscelânea de tais instintos dentro de mim? A vontade de morder-te era imensa, mas o desejo de te manter daquele jeito, era mais que sagrado.

        Amo-te e amarei sempre mais que minha própria vida! Fiquei por horas sentindo teu coração bater junto ao meu. Ainda deitados, sentia e acompanhava o ritmo de tua respiração, como um tolo, ou um louco apaixonado que não se preocupa em estar com a pessoa amada. E deixava minha mente voar naquele momento. Imaginava que estávamos num só corpo, que pertencíamos a uma só alma! Queria parar o universo para que ele deixasse de lado, ao menos por um singelo segundo, todo o trabalho que lhe era designado e reverenciasse minha felicidade. Sim, era merecida tal alegria! Tinha provado o gosto amargo da perda e agora queria sentir, em toda a sua essência o prazer que estava experimentando.

        Mesmo tendo a noite acabado, não queria abrir mais os olhos e enxergar novamente a manhã que se aproximava e, certamente, a levaria para longe . Não tão longe que eu não possa mais alcançar, mas qualquer distância de ti, para mim, era muito, meu amor! Só não imaginava que fossem ficar tão amargos os meus planos novamente. Foste embora e quando a encontrei mais uma vez, não vi em teus olhos o mesmo brilho que havia ao nos despedirmos na última noite.

        Acreditava que tudo o que sentia, estava, por alguma razão, dentro de você também. Após ouvir, incrédulo, e ao mesmo tempo ferido por cada palavra que saia de tua boca, me condenando por coisas alheias ao meu próprio conhecimento, não quis mais acreditar que aquilo estava acontecendo de fato. Sim, preferi pensar que era outro pesadelo, o qual eu já vivi muitas vezes enquanto não estava contigo. Não tive força, ou mesmo coragem para dizer mais nada. Apenas deixei que fosse embora sem falar uma frase sequer. Você ia desaparecendo na névoa daquela cidade fria e consigo levava toda a alegria que me aquecia desde a última noite juntos.

        Não saberia separar o quanto de tristeza ou decepção havia dentro de mim. Só via você se distanciar, lentamente, e preferi não lamentar ou contradizer nada a que você disse. Naquele instante só pude sentir a minha vista distorcida pelas lágrimas que, talvez, para não gritar, deixei que molhassem meus olhos, sem, contudo, expressar mais nada.”


Edmond


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