SEGUNDA PARTE

"Em seu carro, pensava sobre o que havia acontecido, mas fazia uma força enorme para não lembrar, pois isso me deixava cada vez mais envergonhada e ao mesmo tempo ansiosa para provar seu beijo. “Se com aquele toque quase fui “à lua”, imagine como poderia ser o resto?” - fazia perguntas retóricas em minha mente, mas parecia que podia ouvir o que eu pensava. Vez ou outra me olhava com os seus olhos brilhantes. Ele tinha muita segurança ao comportar-se e na forma de me seduzir.

- Minha vida por seus pensamentos agora! – brincou.

- Não estou pensando em nada. – respondi sem graça.

- Tem certeza? Por que não me pergunta o que quer tanto saber?

- Não imagino do que esteja falando...

Ele freou o carro de repente e estacionou em algum lugar. Virou-se para mim e, bem próximo ao meu ouvido, sussurrou:

- Se te disser que te conheço mais do que imagina? Suponha que já estivemos juntos um dia, em outra vida, em outra época, muito distante desta... e que me pediu para lembrá-la do nosso sentimento quando a encontrasse... O que diria?

- Diria primeiro que isso é loucura e segundo... – hesitei um pouco - que meu coração tende a acreditar muito nessa insensatez, após esses últimos minutos que estivemos juntos, mas... sou uma mulher prática e não poderia me deixar envolver por palavras de um estranho... Principalmente sobre isso! Por mais que eu acredite em vida após a morte, reencarnação, etc. Não sou ingênua o suficiente para me deixar levar por essa conversa! Você me confunde com tudo isso! O que quer de mim afinal?

- Não faz idéia do que realmente quero. Ah, Aimeé! Nada em você mudou! Nada pelo qual eu não possa me encantar de novo. Posso ver pelos teus olhos que encontrei o que tanto buscava. Agora sei que você poderia voltar mil vezes, que mil vezes me apaixonaria! – desabafou.

- Isso não faz sentido! Você me parecia um homem tão sério e respeitável... – comentei com ar de desapontamento.

- Eu falo sério, Aimeé. Não consigo mais esconder minha alegria em te reencontrar após tantos anos... séculos! Você foi a mulher que mais amei e continuo amando até hoje! – dizia com uma estranha convicção.

Ao mesmo tempo que minha razão repelia cada palavra que acabava de ouvir, meu coração parecia ir de encontro a qualquer apelo lógico de minha parte. Por mais que lutasse para não acreditar no que dizia, era impossível não me deixar influenciar pelo seu jeito ao expressar tais emoções."


 
(...)
Já era noite. Edmond, sem responder nada, caminhou serenamente até a janela. O céu parecia estar iluminado por Paris. De sua sala podia-se observar a cidade que ostentava as luzes artificiais lá fora. Após alguns instantes de seu silêncio e reflexão, ele aproximou-se e disse:

- Não morri como desejava morrer em seu lugar. Não voltei a este mundo para te reencontrar, porque simplesmente nunca saí dele. Mais uma vez em nossa história sou obrigado a te repetir que... não sou humano, Aimée!

Levantei-me da cadeira e, ofendida, achei melhor dar por encerrada aquela conversa.

- Agora você já está insultando minha inteligência! Como ousa me dizer tanto absurdo? Nem sei por que estou perdendo o meu tempo aqui com você... – disse muito nervosa e ao mesmo tempo transtornada.

- Espere! Não vá ainda. - gritou quando eu já estava de costas para ele. - Vire-se, por favor!

A curiosidade falou mais alto e obedeci o que me pedia. Vagarosamente voltei meu rosto para trás e fui girando meu corpo para vê-lo. Seus olhos pareciam fluorescentes. Brilhavam como o de um Lince selvagem. Sua pele parecia mais clara também. Além disso, estava ainda mais belo! Aproximou-se de mim. Eu estava hipnotizada com aqueles olhos, como num estado catatônico em que algumas vítimas de predadores famintos ficam, prestes a serem atacadas. Só não conseguia parar de acelerar as batidas do meu coração e o rítimo frenético de minha respiração.



Ele segurou meus cabelos e afastou-os lentamente do rosto, deixando os meus ombros e pescoço à sua vista. Após me puxar para si, deslizou, suavemente, sua boca por toda minha cútis, permitindo que sentisse seus lábios quentes e sedosos exalarem um adocicado aroma. Estava completamente embriagada com aquilo! Era semelhante ao êxtase provocado por alguma substância alucinógena. Foi mais forte do que eu e, sem que pudesse me dar conta, já estava beijando-o, quando senti minha língua tocar seus caninos afiados.
 

Instantaneamente, me afastei e olhei melhor para poder acreditar no que via. A adrenalina já estava a mil! Uma mistura de medo e curiosidade foram dando um frio no estômago.

- Não pode ser! O... o que é você?

- Você já deve saber quem sou.

- Não, eu...

- Sou aquele a quem a terra rejeitou decompor a matéria e que os céus recusaram o espírito. Um vampiro. - disse com uma voz seca e direta.
(...)