PRIMEIRA PARTE


CAPÍTULO 1

França – Versalhes – 15 de dezembro de 1687



Chorei e gritei por liberdade, mas de nada adiantou dentro daquele lugar úmido e sombrio. Eu desesperadamente pensava em Edmond e em nosso filho que jamais nasceria. Tive medo da morte como nunca havia sentido antes. As horas de horror que presenciei enquanto estava encerrada naquele lugar terrível foram as piores possíveis, mas o meu corpo já estava muito frágil da violência que sofri e quase não tinha mais ânimo para gritar por ninguém.

- O que eu fiz para essas pessoas? – dizia-me repetidas vezes - Por que o meu erro, ou pecado - como me acusaram – foi considerado tão ferino e alarmante assim? A felicidade, para eles, deveria ser considerada algo muito atroz, luxurioso, indigno... Tudo que com certeza não se parecia com o que Edmond e eu estávamos vivendo. Ah, eu estava tão feliz! Queria tanto ter esse filho! – lamentava, em prantos - Meu Deus, por favor, não me deixe aqui! O que fiz para merecer isso? Foi por me entregar ao assassino de meu marido? Perdoe-me, Senhor, mas não deixe que meu bebê pague por minha culpa!

Eu mesma já tinha presenciado a morte de algumas mulheres, e até homens, sob a acusação de bruxaria, ou incitação ao paganismo. Achava um absurdo tais castigos, mas de certa forma, acreditava que podia ter alguma aprovação divina o que faziam - em nome da igreja - pois não tinha noção de como eram vãs e evasivas as acusações. Podia sentir, naquele momento, dentro de minha alma, a dor e a angustia das inocentes que eram assassinadas. Algumas, queimadas vivas, outras, enforcadas. Muitas das mulheres que foram covardemente perseguidas, provavelmente, não tinham praticado atos de feitiçaria e leviandade argüidos. Algumas foram heroínas por não demonstrarem auto-piedade; outras bradaram por clemência, mas para quase nenhuma das acusadas havia absolvição.
O frio, a fome, a sede e os infortúnios dos ferimentos eram determinantes para o meu desespero. Pelo natural instinto de sobrevivência, eu lutei até minhas últimas forças para tentar escapar. Por horas, olhava os tijolos escuros e sujos que me rodeavam e esperava o meu esgotamento. Outras vezes, me enchia de falsas esperanças e continuava a chamar por Edmond. Mas ele não me ouvia. Ninguém me escutava! Só havia o silêncio pela fresta de luz que me restava enxergar o mundo lá fora. A sensação de impotência diante do próprio desejo de morrer rapidamente, já que não poderia ser salva, era o que me sobrava. O silêncio e o vazio daquele lugar imundo eram apavorantes. Cheguei a acreditar que estava sendo severamente punida por forças celestiais, mas, apesar de tudo, em nenhum momento me arrependi do que havia vivido até então.

            Caída ao chão, coberto por lodo e insetos, após dois dias de confinamento, fechei os olhos e rezei para que a morte me levasse logo consigo; e para que Deus tivesse compaixão do meu sofrimento. Não tinha mais expectativa que me encontrassem naquele lugar. Após tantas horas de abstinência, sede e cansaço, sentia que minha vida estava finalmente se esvaindo. Passei as mãos sobre o meu ventre, já bastante volumoso, e pude sentir pela última vez o meu bebê se mexer. Embora ele tivesse o sangue de alguém muito especial, ainda necessitava de minha vida para sobreviver, sendo assim, também se foi junto comigo.




***


Alguns meses atrás...


            Não entendia porque uma mulher deveria se casar. O casamento sempre nasce de interesses escusos como: política, herança, mas quase nunca de paixão. Seria até imoral falar de paixão numa França de tantas misérias para a classe mais empobrecida e faminta.

            Eu fazia parte do chamado terceiro estado no meu País. O estado que mantinha as classes mais abastadas, como o clero e a nobreza. Estávamos todos condenados aos impostos intermináveis, dízimos, corvéia, obrigações feudais, enfermidades sem cura, tal como foi a peste negra.

            Minha mãe foi vítima da doença aos seus vinte e cinco anos de idade, nos deixando sós, a mim e aos meus irmãos. Estes também faleceram um a um, restando apenas meu pai e eu. Vivíamos numa aldeia de artesãos e camponeses e, como todos, passávamos muita fome e necessidades.

            O trabalho era dividido por toda família, inclusive entre as mulheres e crianças. As primeiras eram tratadas sem respeito, ou pudor muitas vezes. E quando o era, estavam condenadas a servir seus maridos e filhos até a chegada da morte. Com as crianças também não se tinha o cuidado de poupá-las de trabalhos, ainda que na mais tenra idade. A violência era cotidiana em nossa sociedade. Até mesmo o sexo era praticado sem composturas sociais. A nobreza da corte era a maior referência do belo e do magnífico inatingível para nós.

            O casamento, ao contrário do que possa parecer, não era a tábua de salvação. Além de viver em situações precárias, eu precisava de um dote para casar-me bem. Contudo, no meu caso, sempre fui arranjada para o senhor das dívidas do meu pai. Melhor dizendo, o filho dele. O casamento, bem sabia que me traria uma carga enorme aos trabalhos que já tinha no dia a dia.

            A lascívia e outros vícios masculinos atormentavam o cotidiano das mulheres, pois não raro elas eram pegas, desprevenidas, e estupradas em campo aberto, ou até mesmo em suas casas. Inclusive algumas por seus próprios parentes!

            Mas o coração feminino é também um universo enorme de mistérios, desejos e sonhos. Eu sonhava que meu destino ainda poderia ser diferente. Nunca deixei de querer uma vida melhor, embora as minhas condições de vida fossem precárias. Há muitos caminhos que se segue por falta de escolhas, contudo não haveria de ser o meu caso.

            Porém, nenhum problema teria mais importância para mim a partir da noite que conheci Edmond Laforet. Até então nunca tinha ouvido falar dele, ou de sua família. Não sabia sequer o que fazia para ostentar tanto bom gosto e beleza ao vestir-se e ao comportar-se. Pensei que se tratava de um elemento da mais alta nobreza, podendo até mesmo habitar o palácio suntuoso de Versalhes, mas não tinha certeza.

            Só bastava-me admirar seu porte imponente e ao mesmo tempo humilde, talvez por uma timidez que lhe marcava o olhar. A sua expressão ambígua era misteriosamente sedutora para mim. Belo e altivo, cativou-me com um sorriso discreto quando me olhou pela primeira vez. Não sabia ainda, mas estava diante do homem que mudaria meu destino para sempre.



Morte de Gabrielle

 

 

(...)Acompanhado de Agnes e Pierre, encontrou o local exato do poço abandonado no qual fui atirada. Eu não saí um só instante junto aos seus pensamentos. Estava ali para evitar que cometesse qualquer insanidade. Jamais esquecerei o desespero e expressão de dor profunda que sentiu ao encontrar apenas o que havia restado do meu cadáver. Olhou-o por alguns minutos e completamente emocionado esbravejou:

- Deus, por que a tiraste de mim? Por que alimentou minhas esperanças de merecer alguma misericórdia? Já havia me conformado em ser a criatura que sou, não precisava de outros motivos para odiar-me ainda mais! Não deveria tê-la deixado! Por que eu a deixei sozinha? Por que não a transformei como tanto me pedia? Poderia ter evitado que se fosse junto com o nosso filho! - gritava e gemia de desespero ao desabafar sua revolta.

Agnes e Pierre assistiam a tudo sem pronunciar uma só palavra, apenas olhavam aquela cena dramática e, comovidos, preferiram não interromper o amigo que chorava compulsivamente.

- Ah! Que castigo cruel me destes! Nem ao menos poderei ir-me junto contigo, meu amor! Condena-me a ficar aqui sem você por toda eternidade! Como puderam fazer isso com uma criatura tão inocente! Era essa a maldade que eu tanto quis te proteger! Foi a crueldade e a intolerância deste mundo que a arrancaram dos meus braços para sempre! Por que tiveste que partir e tornar o meu mundo tão sombrio novamente? – após uma breve pausa ele cerrou os dentes e, trêmulo de raiva, prosseguiu em desabafo – Só tenho meu ódio agora! Odeio ainda mais a humanidade! Haverá desejo de vingança em cada sopro de vida que esta eternidade maldita me reserva!

Aquelas palavras de sofrimento entravam em mim como punhais e me doíam muito mais que qualquer violência que já havia sentido. Como era doloroso vê-lo chorar e saber que não podia abraçá-lo e dizer que estava ali ao seu lado.


Agnes interrompeu o longo silêncio que pairou alguns instantes e, como que tivesse sentido minha dor também, confortou Edmond com um abraço e lembrou-lhe:



- Sabes que ela não gostaria que estivesse assim, ou falasse essas coisas. Jamais culpe outra circunstância senão o destino que ordenou que se encontrassem numa época de tanta intolerância. Acredite que no futuro as coisas podem mudar. Estaremos aqui em nosso eterno limbo, mas ela poderá voltar um dia, Edmond, não esqueça disso! Sabe melhor que eu, pois foi você quem me ensinou a acreditar nas reencarnações humanas.
(...)


"ETERNO" : Diálogo entre Edmond e Gabrielle.

 

- Acreditava que seres como você não poderiam sequer citar o nome dos santos. Fugiriam da luz do sol, cruzes sagradas... Temeriam estacas, ou alhos... mas falas de Deus e dos anjos com certa intimidade! Como se isso não fosse ameaçador para tua espécie!

Edmond riu ao ouvir minhas palavras.

- Posso lhe garantir que não sou um representante do mal entre os homens. Isto já existe, desde a própria criação, dentro de todos nós. Não se personifica o mal em um ser, ou em alguns seres apenas, pois a maldade está infiltrada nos atos de violência que se vivencia todos os dias. A ignorância dos brutos, a tirania dos poderosos, a exploração dos fracos e a crueldade com os doentes, tudo faz parte da natureza de quem realmente torna-se um monstro pouco a pouco. As coisas não são exatamente iguais ao que dizem as lendas. Não temo a Deus! Pelo contrário, gostaria de voltar a ser seu amigo, seu filho, se assim você preferir chamar todos os humanos criados por Ele. As coisas sagradas não me intimidam e nem mesmo intimidam aqueles que são verdadeiramente maus! Senão porque existem tantos pecadores que matam em nome de Deus e nem por isso temem a cruz? O exorcismo é algo que os homens podem fazer por si mesmos. O verdadeiro arrependimento é o mais poderoso dos exorcismos conhecidos na Terra. Só assim se tira um mal de dentro, ou perto de si. Independente do Deus que acreditas!

Parou de falar por alguns instantes completou:

- Só quero que entendas que só se afasta um mal, seja ele uma criatura das trevas, ou mesmo o que habita dentro de cada um de nós, com o nosso livre arbítrio! Não precisas de estacas, amuletos, cruzes e água benta... Chega a ser tolice acreditar que as forças do bem estariam em objetos inanimados! E quanto a luz do dia, ela não é tão mortal para mim, apenas me enfraquece. Evito-a, mas não a temo.

- O que te mataria então? 
 
***